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Capa do capítulo 3 de Crônicas de Vespéria: Asas sob o Nono Vitral.

Crônicas de Vespéria 03 / 05

Asas sob o Nono Vitral

25 páginas30 min de leituraPaulo Victor Serzedello
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Capítulo 3

Asas sob o Nono Vitral

I. A lista devolvida

Três dias depois da noite no Arquivo, Kraw Savage descobriu que devolver uma lista podia ser mais difícil do que enfrentar uma armadilha. Iria Salvat o aguardava na sala de restauração menor da Ópera de Vespera, onde o teto era baixo demais para a vaidade do edifício e as janelas altas demais para oferecer qualquer vista útil. Àquela hora, a chuva se prendia ao vidro em filetes finos. Sobre a mesa havia sete volumes abertos, três pesos de madeira, uma caixa de pincéis, o Caderno das Margens e duas xícaras de uma infusão que cheirava a casca amarga. Kraw colocou a folha dobrada diante dela.

— Uma cópia, como solicitado. A original não saiu da sua presença por mais de quatro horas, duas ruas e uma discussão com Nessa sobre se copiar números também conta como literatura. Iria não tocou no papel de imediato.

— E qual foi a conclusão?

— Nessa afirma que depende da qualidade do crime descrito pelos números.

— E você?

— Acredito que qualquer sequência pode ser poesia se alguém estiver disposto a sofrer o bastante para explicá-la. Iria ergueu os olhos. Havia cansaço em volta deles, mas não descuido. Ela estudou o rosto de Kraw como estudava lombadas suspeitas: procurando o ponto em que o acabamento escondia reparo recente.

— Seu ombro ainda dói.

— Minha expressão é tão legível?

— Não. Você move a xícara com a mão esquerda desde que entrou. Kraw olhou para a própria mão, traído pelo corpo.

— Corven disse que melhoraria.

— Corven também disse que você deveria descansar.

— Ele usa essa palavra com generosidade irresponsável.

— Eu a uso como ordem. Kraw sorriu. Iria não. Ainda assim, empurrou para ele uma das xícaras, e o gesto possuía o tipo de cuidado que não pedia reconhecimento. Ele decidiu não transformar aquilo em metáfora. A decisão exigiu mais disciplina do que algumas fintas. Iria abriu a cópia. Kraw observara sua caligrafia por tempo suficiente para reconhecer a diferença entre pressa e irritação. As notas novas estavam firmes demais. Ela havia passado os últimos dias discutindo com superiores, refazendo inventários e respondendo a perguntas formuladas para encontrar um culpado conveniente, não uma verdade.

— Ariane suspendeu o acesso à Sala do Índice Morto — disse Iria. — Oficialmente por segurança. Na prática, porque metade do Conselho da Ópera prefere fingir que o Registro 47-L se abriu sozinho.

— Lucian falou com ela?

— Lucian fala com todo mundo como se estivesse duelando em salão. Às vezes funciona. Desta vez, ela pediu que ele deixasse a família resolver assuntos de família.

— Uma frase eficiente para impedir qualquer resolução.

— Você aprende rápido. Kraw pousou a xícara. Entre eles, a lista parecia pequena demais para sustentar o peso que carregava. Sete números relacionados à Noite dos Sinos Partidos, ao Palco da Lanterna ou a Seraphine. Sete discrepâncias em um caderno de dezenove. Sete lugares onde alguém retirara, restaurara, reclassificara ou devolvera uma parte da história sem deixar o gesto registrado.

— Encontrei algo — disse ele. Iria ficou imóvel. Kraw retirou do bolso uma tira estreita de papel. Era uma cópia feita por Mirella de uma antiga nota de oficina. Quatro padrões haviam sido costurados em suportes diferentes quatorze meses antes: papel, tecido, som e corpo. Mirella ainda se recusava a dizer tudo, mas permitira que ele levasse aquela linha. Iria leu em silêncio.

— “O suporte não deve saber que é suporte” — disse. — Isso parece Seraphine.

— Minha mãe afirma que não era instrução completa. Era advertência.

— Sua mãe afirma muitas coisas pela metade.

— É um talento de família. Meu pai faz o mesmo com frases de três palavras. Iria tocou a borda da tira com a ponta do dedo.

— Papel, tecido, som e corpo. O Registro menciona quatro portadores. A última voz não permanece inteira em papel. Sua irmã produz um Eco com uma melodia inacabada. E alguém testou sua resposta corporal no Arquivo.

— Você está dizendo que eu posso ser um dos suportes.

— Estou dizendo que ainda não sei distinguir suporte de alvo. Kraw sustentou o olhar dela. Havia algo quase íntimo em ser levado a sério por alguém que não oferecia confiança por cortesia. Ele percebeu que desejava dizer isso. Percebeu também que Iria provavelmente o mandaria escrever num papel e catalogar em categoria apropriada.

— Obrigado — disse.

— Pelo quê, desta vez?

— Por não fingir que sabe. A expressão de Iria se desarmou apenas o bastante para que ele notasse.

— É a parte mais difícil do meu ofício — respondeu. — Preservar o que existe sem preencher as lacunas com o que eu gostaria de encontrar. Kraw olhou para a chuva no vidro.

— Talvez seja por isso que eu confie em você. Iria voltou os olhos para a lista. A ponta da orelha dela ganhou uma cor mais quente. Kraw teve a sabedoria rara de não apontar o fenômeno.

II. Ouro sob a unha

Dália Salvat morava acima de uma loja de molduras no Mercado das Arcadas, num apartamento onde tudo refletia um pouco de ouro. Não riqueza: resíduo. Pó de folha, pigmento preso nas frestas, linhas brilhantes sob as unhas, pequenos acidentes luminosos acumulados ao longo de décadas de trabalho. Iria levou Kraw até lá porque Dália conhecia ferramentas que já não eram produzidas e mãos que muitos patronos fingiam nunca ter contratado. Kraw aceitou o convite com calma deliberada. Nessa, ao saber, perguntou se “visitar a mãe de uma restauradora” contava como etapa investigativa ou como avanço social. Ele respondeu que a pergunta era ofensiva. Nessa anotou a resposta para usar mais tarde. Dália abriu a porta antes que Iria batesse pela segunda vez.

— Você trouxe o espadachim — disse, olhando Kraw da cabeça aos pés.

— Trouxe um documento com pernas — respondeu Iria.

— Os piores. Sentam, opinam e pedem chá. Kraw inclinou a cabeça.

— Posso prometer limitar duas dessas atividades.

— Não limite a opinião. Quero saber se os rumores merecem o trabalho que dão. Iria fechou os olhos por um segundo. O apartamento cheirava a cola de pele, casca de laranja e metal aquecido. Dália colocou diante deles uma lupa de aro pesado e analisou a cópia da carta, a fotografia desenhada da marca de ferramenta e uma amostra selada do pó cinzento. Seus dedos tremiam pouco, mas a precisão permanecia intacta.

— Este corte foi feito por uma lâmina de meia-lua — disse. — Usávamos para levantar douramento sem rasgar o tecido abaixo. A Liga aposentou quase todas depois da Libertação porque eram fáceis de usar para abrir compartimentos sem deixar marca frontal.

— Quem ainda teria uma? — perguntou Kraw.

— Gente velha, gente rica e gente que rouba de ambas. Iria apoiou a mão na mesa.

— A minha desapareceu por duas horas no mês passado. Dália levantou o rosto.

— Você não me contou.

— Eu contei à supervisão.

— Então não contou a ninguém. O silêncio entre mãe e filha tinha história. Kraw reconheceu o tipo de tensão que se instala quando duas pessoas se amam o bastante para conhecer exatamente onde ferir e se contêm por hábito.

— A ferramenta voltou limpa? — ele perguntou. Iria assentiu.

— Limpa demais. Dália aproximou a lupa do pó.

— Há vidro aqui.

— Do vitral? — perguntou Iria.

— Talvez. Não é areia comum. Há chumbo, pigmento azul e uma camada que não consigo identificar. Tragam isto ao Salão do Pássaro Canoro. Os vitrais antigos foram restaurados com uma liga parecida. O Nono Vitral, principalmente. Kraw conhecia o Nono Vitral apenas de longe. Era uma peça circular acima da ala de contemplação, composta por um pássaro claro cercado de linhas azuis e douradas. Diziam que a luz atravessava o vidro de modo diferente conforme o músico que tocava abaixo.

— A Câmara atrás dele ainda é usada? — perguntou Iria.

— Para estudo de Eco — respondeu Dália. — Quando a direção permite. O lugar escuta de volta. Kraw sentiu a frase se prender em alguma parte da memória. Dália percebeu.

— Não faça essa expressão poética. É acústica, não destino.

— Às vezes são a mesma coisa com melhor financiamento. Iria soltou um som curto. Quase riso. Dália olhou para a filha, depois para Kraw, e a atenção dela se tornou perigosamente satisfeita.

— Entendo — disse.

— Não entende nada — respondeu Iria depressa.

— Trabalho com molduras. Sei quando duas coisas estão tentando decidir se pertencem à mesma composição. Kraw escolheu observar a xícara. Iria escolheu reorganizar ferramentas que já estavam organizadas. Dália escolheu não aliviar ninguém. Quando saíram, a chuva havia parado. O Mercado das Arcadas respirava vapor, tinta, ervas e pão. Iria caminhou ao lado de Kraw sem dizer nada por meia rua.

— Sua mãe é impressionante — ele disse.

— Não elogie.

— Eu ia dizer assustadora.

— Melhor.

— E impressionante. Iria olhou para ele.

— Você não consegue evitar.

— Consigo. Apenas não vejo vantagem em negar fatos bem sustentados.

— Foi assim com as esgrimistas? Kraw parou. Iria também parou, percebendo tarde demais que tocara num rumor que ele suportava com humor apenas porque a alternativa seria viver permanentemente irritado.

— Desculpe — disse.

— Não precisa.

— Preciso, sim. Eu conheci sua reputação antes de conhecer você e ainda a uso quando quero vencer uma conversa. Kraw considerou responder com leveza. A honestidade de Iria merecia outra coisa.

— É cansativo — disse. — Não ser o homem que as pessoas descrevem e ainda assim precisar responder por ele.

— Eu sei.

— Como?

— Porque o Arquivo me chama de difícil quando quer dizer que eu registro o que preferiam esquecer. Voltaram a caminhar. Dessa vez, a distância entre os ombros pareceu menor, não porque tivessem se aproximado, mas porque nenhum dos dois precisava fingir que a distância não existia.

III. Um caminho que não era passeio

O Salão do Pássaro Canoro ficava na Colina do Canoro, acima dos telhados mais densos de Vespera. O caminho até lá atravessava ruas onde oficinas cediam lugar a jardins estreitos, muros cobertos de hera e pequenas casas de artistas que haviam aprendido a parecer pobres com elegância. Kraw e Iria subiram a pé. Dália enviara uma mensagem à curadoria do Salão e uma segunda, mais curta, a alguém que parecia ter medo dela. Lucian prometera chegar ao entardecer. Nessa encontraria Corven no Mercado e levaria a amostra. Liora fora expressamente proibida por Kraw de participar da primeira análise, decisão que ela recebera como declaração de guerra doméstica.

— Você sabe que sua irmã irá de qualquer forma — disse Iria.

— Sei.

— Então por que proibiu?

— Para que ela precise escolher desobedecer conscientemente e leve equipamento adequado. Iria encarou-o.

— Isso é a estratégia de proteção mais absurda que já ouvi.

— Meu pai chama de criar resistência por atrito.

— Seu pai provavelmente chama de outra coisa.

— Ele chama de “você vai aprender”. A colina se abriu atrás deles. Vespera descia em camadas até o Mar de Âmbar: torres, fumaça, cúpulas, telhados molhados e a massa escura da Ópera. Iria parou junto a um parapeito. Kraw parou também, mas não comentou a vista. Esperou.

— Minha mãe queria que eu trabalhasse com molduras — disse Iria. — Eu escolhi documentos porque molduras sempre me pareceram honestas demais. Elas anunciam que selecionam o que merece ser visto. Arquivos fingem guardar tudo.

— E não guardam.

— Guardam escolhas. Depois chamam as escolhas de história. Kraw apoiou os braços no parapeito.

— Seraphine dizia que um palco faz o mesmo. A luz aponta para onde olhar. O erro começa quando alguém esquece que o escuro também existe.

— Você fala dela no presente. Ele percebeu que era verdade.

— Não sempre.

— Mas hoje.

— Hoje a investigação parece coisa que ela ainda está fazendo conosco. Iria retirou uma mecha do rosto. O vento a devolveu imediatamente.

— Você a amava? A pergunta não veio com ciúme. Veio com precisão profissional e uma delicadeza que Iria provavelmente negaria possuir.

— Sim — respondeu Kraw. — Não da forma que as pessoas perguntam quando fazem essa pergunta. Ela foi mestra, ameaça, porto, crítica e a primeira pessoa que viu como eu lutava antes de eu saber que aquilo era luta. Amor é uma palavra larga. Seraphine ocupava mais de uma sala dentro dela. Iria assentiu.

— Entendo.

— E você? — ele perguntou. — Já amou alguém que desapareceu sem ir embora? Ela demorou.

— Meu pai ficou anos em casa depois de deixar minha mãe. Morava duas ruas abaixo, trabalhava no mesmo mercado e agia como se atravessar uma porta fosse distância suficiente para encerrar responsabilidade. Então sim. Mas não é uma história bonita.

— Não precisa ser bonita para ser verdadeira.

— Isso vindo de você é quase revolucionário. Kraw sorriu, mas a tristeza permaneceu no rosto dela. Ele não tentou corrigi-la. Caminharam de novo. Ao chegarem ao portão do Salão, Iria tocou de leve o braço dele.

— Kraw.

— Sim?

— No Arquivo, quando você ficou… eu soube que você tinha escolhido pessoas. Mas também soube que parte de você queria correr atrás daquela sombra.

— Ainda quer.

— Eu não vou pedir que deixe de querer. Apenas não transforme a escolha certa numa dívida impossível. Kraw olhou para a mão dela sobre o próprio braço. Iria a retirou, mas tarde o bastante para que o gesto existisse.

— Você sempre oferece conselhos com a delicadeza de quem restaura couro com uma faca? — perguntou.

— Só quando o material é resistente e insiste em se rasgar sozinho.

— Vou registrar como elogio.

— Registre como diagnóstico.

IV. A nota que levantou poeira

O Salão do Pássaro Canoro e a luz que antecede a chegada de Pandora. O Salão do Pássaro Canoro não era templo no sentido de exigir joelhos dobrados. Era um lugar construído para lembrar que criação também podia ser devoção. Estátuas seguravam instrumentos, pinturas permaneciam abertas a estudo, flores eram substituídas por artistas voluntários e o grande vitral central devolvia à luz cores que o céu de Vespera raramente oferecia sozinho. Nessa já os aguardava junto a uma mesa lateral, sentada sobre uma pilha de almofadas que a deixava na altura apropriada para discutir com adultos altos. Corven organizava frascos. Lucian permanecia de pé diante de uma tapeçaria, como se temesse ser confundido com decoração menos cara.

— Vocês demoraram — disse ele.

— São duas e três — respondeu Nessa. — Para uma caminhada sem criados, é um triunfo logístico. Lucian percebeu a repetição e pareceu ofendido por ter fornecido material que sobrevivera três dias. Iria entregou a amostra a Corven. Ele examinou o selo, a etiqueta, a assinatura dela e só então abriu.

— Mesmo resíduo do Arquivo — disse após alguns minutos. — Mesma base do tônico. Mas Dália tem razão. Há vidro pigmentado.

— Do Nono Vitral? — perguntou Kraw.

— A análise precisa de comparação. Uma voz respondeu do alto da nave:

— Então comparem com isto. Liora surgiu na galeria interna segurando o estojo do violino. Garran vinha atrás, não porque aprovasse a presença dela, mas porque preferia acompanhar a desobediência a fingir que poderia impedi-la. Kraw fechou os olhos.

— Eu disse que não viesse.

— Você disse que não participasse da primeira análise. A primeira análise já começou. Eu ouvi a última frase. Nessa levantou dois dedos.

— Tecnicamente correta. Moralmente irritante. Estou orgulhosa. Garran desceu os degraus com cuidado.

— Eu trouxe porque ela sairia pela janela.

— Eu não sairia pela janela — disse Liora.

— A corda estava pronta. Liora não respondeu. A curadora do Salão, uma mulher idosa sem nome relevante para a história e com autoridade suficiente para dispensar apresentações, permitiu que usassem a sala sob o vitral por uma hora. Liora posicionou-se no centro do mosaico do piso. Corven colocou a amostra num suporte de cobre. Iria abriu o Caderno das Margens. Kraw manteve a rapieira embainhada.

— Apenas a sequência curta — disse ele à irmã.

— Você não dirige esta sala.

— Apenas a sequência curta — repetiu Garran. Liora respirou e tocou. A Melodia sem Conclusão começou como sempre: quatro notas firmes, uma quinta que parecia procurar chão e um intervalo longo demais. Porém, diante do Nono Vitral, o intervalo não permaneceu vazio. A luz azul sobre o piso tremeu. Poeira se levantou em linhas finas, como se alguém tivesse soprado por baixo das pedras. Iria escreveu uma palavra. Corven fechou o frasco. Lucian deu um passo para trás. Kraw sentiu o Pulso no esterno antes de ouvi-lo: uma vibração que não pertencia à melodia, mas sabia imitá-la. O vitral respondeu com uma nota tão baixa que parecia vir do interior dos ossos. Liora interrompeu o arco. A nota continuou.

— Isso não é meu — disse ela.

— Eu sei — respondeu Kraw. O grande pássaro de vidro projetado no chão abriu as asas, embora a luz exterior não tivesse mudado. Então algo bateu do lado de fora. Uma vez. Duas. Na terceira, uma sombra enorme cruzou o vitral e desapareceu sobre o telhado. Ravena foi a primeira a entrar, um corvo negro atravessando uma janela lateral aberta com a confiança de quem considerava arquitetura mera sugestão. Deu uma volta sobre a cabeça de Lucian, roubou o prendedor dourado de sua gola e pousou no suporte da amostra.

— Devolva isso — disse Lucian. O corvo inclinou a cabeça.

— Ela vai devolver — respondeu uma voz feminina do lado de fora. — Quando decidir que você aprendeu alguma coisa. Uma águia pousou no parapeito externo. Por um instante, ninguém falou. A ave era grande, de penas escuras nas asas e claras na cabeça, olhos atentos demais para o acaso. O corpo se contraiu num movimento impossível e ainda assim orgânico. Pena virou tecido, asa virou braço, garras encontraram botas no mármore. Uma mulher jovem se ergueu onde a águia estivera, envolta num manto escuro de viagem, os cabelos negros desfeitos pelo vento. Ela olhou para o grupo, para o frasco e para a luz que continuava tremendo no piso.

— Qual de vocês mexeu numa Cicatriz de Ausência sem saber o que era? Nessa apontou para Kraw.

— Ele mexe em muitas coisas sem saber o que são. Precisará ser específica.

V. Pandora Parks

Pandora Parks, desatadora, pesquisadora de Cicatrizes de Ausência e metamorfa alada. A desconhecida entrou pela janela com mais naturalidade do que a maioria das pessoas entrava por portas. Ravena saltou do suporte para o ombro dela, ainda carregando o prendedor de Lucian no bico.

— Pandora Parks — apresentou-se. — Desatadora, pesquisadora de resíduos, dona oficial do corvo e vítima frequente das decisões dele.

— Dela — corrigiu Lucian, apontando para Ravena. — Se a ave é fêmea.

— Dele, o corvo. Dela, a decisão. Ravena não considera gramática uma obrigação recíproca. Ravena soltou o prendedor. Lucian o apanhou antes que atingisse o chão, o que pareceu agradar ao animal. Kraw observou Pandora. Ela tinha o rosto muito claro, olhos escuros e uma atenção inquieta, como se enxergasse não apenas os objetos, mas o espaço deixado por aquilo que deveria estar entre eles. Frascos pendiam do cinto. Um grimório de madeira negra estava preso às costas por correias, fechado com cadeado. O manto parecia costurado para acomodar mudanças de forma sem se destruir, solução que teria fascinado Mirella. Pandora o observou de volta.

— Você é Kraw Savage.

— Depende de quem perguntou.

— Três padeiros, uma dramaturga em panfleto antigo e um rapaz que jurava ter sido desarmado por um elogio. Nessa levantou a mão.

— A dramaturga sou eu, mas não lembro do panfleto.

— Estava embrulhando peixe.

— Publicação é publicação. Pandora sorriu para Kraw.

— Esperava alguém mais alto.

— Eu esperava entrar nesta conversa por porta menos estreita. Iria fechou o Caderno das Margens.

— Como encontrou o Salão? Pandora desviou o olhar para ela. A avaliação entre as duas foi rápida e completa.

— Segui o resíduo do Arquivo até o vidro. E o corvo seguiu o objeto brilhante de um nobre. As duas técnicas funcionaram.

— O Arquivo está fechado.

— Fechado não é o mesmo que silencioso.

— Para quem você trabalha?

— Para uma pergunta que ninguém mais quer responder. Iria não gostou da forma da resposta. Pandora pareceu gostar da resistência. Kraw interveio antes que a conversa se tornasse um duelo sem lâminas.

— Você chamou o resíduo de Cicatriz de Ausência. A alegria no rosto de Pandora diminuiu. Não desapareceu; ficou concentrada. Ela retirou do bolso um embrulho de couro e o abriu sobre a mesa. Dentro havia um fragmento de metal azul- escuro preso a pedra calcária. À primeira vista, nada especial. Quando Kraw tentou fixar o olhar na peça, sua atenção escorregou para os dedos dela, para a mesa, para a luz. Não era invisibilidade. Era ausência de relação. O objeto existia, mas o pensamento se recusava a mantê-lo ligado ao que via. Iria aproximou-se.

— Eu conheço essa sensação.

— Eu também — disse Pandora. — Há dois anos. Ela contou sobre Elias Parks, o irmão mais velho. Pesquisador de ruínas, homem paciente, péssimo cozinheiro e único membro da família capaz de convencê-la a abandonar uma pista por uma noite de sono. Elias viajara às Ruínas de Cérulo para investigar registros desaparecidos sem destruição material. Pandora o encontrou tarde demais: nenhuma luta, nenhum corpo, nenhuma testemunha, nenhum objeto pessoal. Apenas a pedra marcada e uma área onde perguntas perdiam o caminho antes de formar resposta.

— As autoridades disseram que ele partiu — falou Pandora. — Pessoas partem deixando peso no mundo. Pegadas, dívidas, hábitos, gente irritada. Elias deixou uma ausência construída. Corven examinou o fragmento sem tocá-lo.

— E você seguiu essa marca até Vespera?

— Segui cicatrizes menores por dois anos. Bibliotecas, ruínas, laboratórios queimados, coleções privadas. A maioria era erro, fraude ou magia ruim. Então ouvi falar do incidente na Ópera. Um registro alterado. Pessoas desorientadas. Um efeito que não apaga a mente, mas corta a ligação entre percepção e sentido.

— Quem falou? — perguntou Lucian. Pandora olhou para Ravena.

— Pássaros escutam mais do que patronos imaginam. Lucian pareceu considerar aquilo uma ofensa à segurança institucional. Iria abriu novamente o caderno.

— Mostre a peça ao lado da amostra. Pandora o fez. O pó cinzento no frasco não se moveu, mas o vidro em torno dele embaçou. A luz do Nono Vitral perdeu uma linha dourada. Pandora ficou séria.

— É a mesma família de ferida. Kraw sentiu a investigação mudar de escala. Seraphine, o Soneto, o Véu Cinzento, o irmão de Pandora. Uma cidade e uma ruína distante ligadas pelo modo como a verdade era cortada.

— Você disse que desfaz feitiços — ele falou.

— Desfaço padrões. Feitiço é palavra que faz parecer que a magia chega pronta. Toda manifestação possui Pulso, Traço, Âncora e Eco. Eu procuro o fio que mantém os quatro acreditando que são uma coisa só.

— E corta.

— Às vezes. Às vezes puxo. Às vezes convenço o nó de que nunca foi necessário. Kraw sorriu.

— Isso é uma bela forma de violência. Pandora sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que a investigação exigia.

— E você é mais interessante do que os padeiros conseguiram explicar. Iria virou uma página com força suficiente para ser audível. Pandora percebeu. Depois olhou de Kraw para Iria e não pareceu decepcionada. Pareceu ainda mais curiosa.

VI. Três maneiras de admirar

Decidiram suspender a experiência até obter autorização para a Câmara do Nono Vitral. A curadora do Salão exigiu tempo, assinaturas e a presença de alguém da Liga. Iria ofereceu as duas últimas coisas e ameaçou fornecer a primeira por meio de relatório público. A autorização surgiu antes do anoitecer. Enquanto esperavam, espalharam-se pelo jardim interno. Liora foi levada para casa por Garran sob protesto e com a promessa de não tocar a sequência completa sozinha. Corven permaneceu com as amostras. Nessa interrogou Pandora sobre transformação animal com entusiasmo de dramaturga e crueldade de amiga.

— Você vira uma águia inteira? — perguntou.

— Inteira.

— Roupa incluída?

— Depende da roupa, do preparo e do quanto eu aceito voltar nua para um telhado.

— Excelente. Já tenho três cenas.

— Não escreva nenhuma sem me pagar. Lucian treinava sozinho junto às colunas, irritado por um corvo haver vencido o primeiro duelo da tarde. Iria revisava uma planta da Câmara. Kraw encontrou Pandora perto da fonte, oferecendo a Ravena um pedaço de fruta.

— Posso perguntar sobre o livro? — disse.

— Pode. Posso não responder.

— O cadeado está fechado para proteger o mundo de dentro ou o conteúdo do mundo? Pandora riu.

— Você realmente fala assim sem ensaiar.

— Algumas tragédias são naturais. Ela retirou o grimório das costas e apoiou-o no colo. A madeira negra possuía linhas que pareciam letras até que os olhos tentavam lê-las.

— O Livro das Margens Altas pertence à minha linhagem há gerações. Ele guarda técnicas, nomes, mapas e uma memória vinculada que chamamos de O Inscrito.

— Uma pessoa?

— Já foi parte de uma. Ou de várias. Não sei. Ele escreve respostas nas margens, mas escolhe o que considera importante. O que significa que é quase tão irritante quanto um mestre vivo.

— Ele sabe sobre Elias? A alegria de Pandora encolheu outra vez.

— Sabe alguma coisa. Quando pergunto diretamente, as páginas ficam em branco. Quando sigo outra pista, ele oferece um símbolo, uma direção, uma palavra. Às vezes penso que está me protegendo. Às vezes penso que está protegendo a si mesmo. Kraw sentou-se no bordo da fonte.

— Seraphine fazia isso. Dava metade da resposta e esperava que eu aprendesse algo no caminho até a outra metade.

— Você a perdoava?

— Quase sempre depois de reclamar bastante. Pandora observou o jardim.

— Eu não perdoo O Inscrito. Continuo lendo. É diferente. Houve silêncio. Ravena saltou para o ombro de Kraw sem pedir autorização e examinou a tatuagem em sua cabeça. Kraw permaneceu imóvel.

— Ela aprova você — disse Pandora.

— Ou procura algo brilhante.

— As duas coisas não são incompatíveis. Iria apareceu no arco do jardim.

— A Câmara está aberta. Pandora levantou-se. Ao passar por Iria, parou.

— Você não gosta de mim. Iria guardou a planta.

— Eu não conheço você.

— Excelente. Detesto julgamentos preguiçosos.

— Não confunda ausência de julgamento com confiança.

— Não confundo ausência com nada. É minha especialidade. Por um instante, Kraw temeu que as duas se tornassem rivais pela razão mais tediosa possível. Mas Pandora sorriu e Iria quase respondeu. A tensão não desapareceu; adquiriu respeito. Subiram juntos. Na escada, Pandora aproximou-se de Kraw.

— Você está percebendo que gosta dela? — perguntou em voz baixa. Kraw quase perdeu um degrau.

— Essa pergunta é ofensivamente direta.

— Passei dois anos seguindo pistas que desaparecem quando alguém usa delicadeza demais.

— E você costuma interrogar desconhecidos sobre sentimentos no primeiro dia?

— Só quando também estou interessada. Kraw olhou para ela. Pandora não desviou.

— Não precisa responder — disse. — Eu não coleciono pessoas. Apenas prefiro saber o formato do terreno antes de pousar.

— Você diz isso como águia ou como mulher?

— Sim. Iria, alguns degraus acima, virou o rosto.

— Se os dois terminarem a análise geográfica, o vitral continua esperando. Kraw decidiu que qualquer resposta seria pior. Nessa, atrás dele, sussurrou:

— Isso ficará maravilhoso quando todos sobreviverem à própria incapacidade de conversar.

VII. A Câmara do Nono Vitral

A entrada para a Câmara ficava atrás de um painel de madeira entalhada na galeria superior. Além dele, uma passagem estreita acompanhava a curva da parede externa até uma sala circular entre o grande vitral e a nave principal. O espaço fora construído para restauradores e estudiosos observarem o vidro pelo verso. Passarelas de metal contornavam a estrutura. Pequenas plataformas permitiam alcançar painéis específicos. Cabos de chumbo, armações e reforços formavam uma floresta geométrica. A luz entrava fragmentada, projetando cores invertidas. Ali, o pássaro do vitral não parecia voar para o salão; parecia preso, encarando quem conhecia suas costas. Iria abriu a planta sobre uma mesa estreita.

— Há quatro nichos acústicos — disse. — Foram usados para testar instrumentos durante a restauração de vinte e três anos atrás. Se o vidro da amostra veio daqui, pode haver resíduo nos encaixes. Corven distribuiu tiras de pano para proteger as mãos. Lucian acendeu duas lanternas. Nessa verificou a porta e anunciou que uma única saída em espaço de investigação era “uma escolha arquitetônica escrita por alguém que odiava personagens”. Pandora colocou a Marca de Cérulo no centro da mesa. Ravena voou para a viga mais alta. Kraw permaneceu ao lado de Iria. Ela percebeu.

— Não preciso de guarda-costas.

— Estou protegendo a planta.

— A planta está entre nós.

— Exatamente. Iria respirou pelo nariz, quase divertida. Começaram pelos nichos. O primeiro guardava apenas poeira e restos de cera. O segundo tinha um parafuso trocado recentemente. O terceiro produziu um eco atrasado de meio segundo quando Lucian bateu na estrutura com o cabo da lanterna. No quarto, Iria encontrou uma linha de douramento novo sob a borda de chumbo.

— Aqui. Pandora aproximou os dedos sem tocar. Fechou os olhos. Sua respiração mudou. As unhas escureceram, a pele dos antebraços ganhou um desenho breve de penas e depois voltou ao normal.

— Há um Traço adormecido — disse. — Foi construído para despertar quando duas cicatrizes semelhantes ocupassem a Câmara. Corven olhou para as amostras.

— A Marca e o pó.

— Sim. Lucian fechou a mão na rapieira.

— Então alguém esperava Pandora.

— Ou alguém como eu — respondeu ela. — Um desatador. Uma pessoa capaz de reconhecer a ferida e tentar abri- la. Iria examinou o douramento.

— Posso remover a folha sem ativar?

— Não sei.

— Resposta honesta. Gosto de você um pouco mais. Pandora sorriu. Kraw ouviu um ruído atrás do vidro. Não som. A lembrança de um som. Como se uma nota tivesse sido tocada ali no dia anterior e o espaço acabasse de decidir recordá-la.

— Parem — disse. Todos pararam. O ruído voltou. Desta vez, Nessa ouviu.

— Parece alguém respirando do outro lado.

— Não existe outro lado — disse Lucian. — Só a nave. Ravena abriu as asas e gritou. O cadeado do Livro das Margens Altas se abriu sozinho. As páginas viraram com violência. Uma frase apareceu em tinta fresca: NÃO DESATE. O NÓ ESTÁ OLHANDO. Pandora estendeu a mão para fechar o livro. O douramento no quarto nicho partiu. A luz do vitral apagou.

VIII. O Coro Oco

A primeira coisa que desapareceu foi a distância. Kraw viu Iria ao lado da mesa e, no mesmo instante, a viu do outro lado da Câmara. Não uma ilusão completa: um atraso do corpo, uma cópia sem rosto repetindo o gesto que ela acabara de fazer. A figura de vidro e sombra levantou a mão depois dela, virou a cabeça depois dela, respirou depois dela. Então outras surgiram. Uma para cada pessoa. Seis formas humanas, lisas onde deveriam ter olhos e boca, compostas por placas translúcidas unidas por linhas de chumbo. O Coro Oco copiava movimentos com um intervalo curto. Quando Lucian puxou a rapieira, sua cópia puxou uma lâmina de luz escura. Quando Nessa recuou, a forma dela avançou pelo mesmo caminho, como se o atraso não respeitasse direção.

— Não repitam padrões! — gritou Pandora. Kraw atacou com uma finta interrompida. Deu meio passo, mudou o pulso, deixou a mão livre apontar para cima e a rapieira cortar em diagonal. Sua cópia tentou reproduzir tudo ao mesmo tempo. O vidro do braço se torceu. A lâmina de Kraw atravessou a junta e arrancou um fragmento. Nenhum som de quebra. O pedaço caiu e começou a repetir sozinho o último movimento da mão dele. Lucian combateu a própria cópia como se estivesse diante de um espelho que conhecia suas vaidades. Os dois avançaram em perfeita simetria. Lucian sorriu de repente, exagerou uma postura teatral e, no momento em que o Eco o imitou, abandonou a elegância e chutou o joelho da criatura.

— Não conte a ninguém — disse a Kraw.

— Registrarei como evolução. Nessa não possuía espada. Sua cópia também não. Ainda assim, abriu uma boca inexistente e lançou uma onda muda que dobrou a passarela. Nessa respondeu gritando a pior fala que conseguia improvisar:

— O destino é uma sopa e todos nós somos colheres! A frase era tão irregular que o Eco perdeu o tempo. A onda se desfez em vibrações menores.

— Eu me odeio — disse Nessa.

— Continue! — gritou Iria. Corven derrubou uma lanterna para criar padrões de luz instáveis. Sua cópia tentou acompanhar as chamas e se dividiu em três gestos incompletos. Ravena mergulhou, roubando fios de chumbo soltos e soltando-os sobre as criaturas. Pandora ergueu as mãos.

— Toda magia possui um fio! Ela pronunciou palavras que não eram comando, mas análise. Nomeou Pulso, Traço, Âncora e Eco. A Câmara respondeu. Linhas surgiram no ar, ligando cada forma ao quarto nicho e, acima dele, a algo por trás do vitral.

— A Âncora não está na sala! — disse.

— Onde? — perguntou Kraw. Pandora olhou para cima. O pássaro de vidro do Nono Vitral moveu a cabeça. As placas do peito abriram-se como costelas. Atrás delas não havia céu nem nave, mas um espaço profundo e sem cor. Uma ausência circular, larga o bastante para engolir a luz. Dela vieram vozes. Não palavras. Fragmentos de pessoas esquecendo o que estavam prestes a dizer. Iria segurou o Caderno das Margens contra o peito.

— Está procurando os registros — falou. A cópia sem rosto dela virou-se para o caderno.

— Iria, saia da linha — disse Kraw.

— Se eu sair, ela leva isto.

— O caderno não vale você.

— Não é o caderno. São os nomes dentro dele. Kraw quis responder que nomes podiam ser copiados, pessoas não. Antes que falasse, o chão inclinou. A Câmara deixou de obedecer à gravidade. A parede tornou-se piso por um segundo. Corven caiu contra a grade. Lucian prendeu o braço dele. Nessa rolou sob a mesa. Pandora abriu asas parciais para manter equilíbrio, penas negras e douradas surgindo ao longo dos braços. A forma de Iria avançou. Kraw entrou entre as duas. A lâmina escura atingiu sua rapieira. O impacto não empurrou metal contra metal; retirou do braço dele a memória do movimento. Por um instante, Kraw esqueceu como segurava a arma. A rapieira quase caiu. Iria agarrou seu pulso.

— Kraw. A voz dela devolveu relação ao corpo. Pai, treino, escadaria, mão, guarda. Ele fechou os dedos.

— Obrigado.

— Depois. Pandora lançou o próprio Traço contra o fio principal. A energia se enrolou no vazio e foi absorvida.

— Ele está usando a tentativa de desfazer como alimento!

— O livro avisou — disse Nessa.

— O livro é insuportável!

— Também gosto dele. A ausência atrás do vitral aumentou.

IX. A lâmina de vidro

O Coro Oco mudou de estratégia. As cópias deixaram de imitar apenas os corpos. Começaram a imitar vínculos. A forma de Lucian assumiu a postura de Kraw. A de Kraw repetiu o modo como Garran apoiava a perna ferida. A de Nessa ergueu as mãos como Seraphine fazia ao corrigir uma cena. A de Iria inclinou a cabeça exatamente como Dália quando reconhecia um douramento ruim.

— Ele está lendo as Âncoras — disse Pandora, horrorizada. — Não só os movimentos. As pessoas que mantêm vocês inteiros. Kraw atacou a figura que usava o gesto de seu pai. A raiva tornou o golpe previsível. A criatura bloqueou e devolveu uma estocada que passou junto às costelas.

— Não ofereça emoção limpa! — gritou Pandora. — Misture! Minta para o padrão! Kraw riu no momento errado, chorou sem lágrima, avançou com o corpo de um duelo e o ritmo de uma dança infantil que Liora tocava quando criança. A cópia falhou. Lucian abandonou a própria assinatura e imitou Garran. Nessa recitou uma lista de compras em métrica trágica. Corven arremessou frascos vazios em vez de compostos importantes. Por alguns segundos, funcionou. Pandora transformou-se por completo. A mudança atravessou seu corpo como onda: braços em asas, coluna inclinada, rosto em bico, peso redistribuído. A águia ganhou o espaço estreito com duas batidas fortes e voou ao redor da Âncora, forçando os fios a torcer. Ravena acompanhou-a, menor e mais rápida. As duas aves cruzaram direções impossíveis, uma visão alta e outra baixa. Iria chegou ao quarto nicho.

— Há uma placa de catálogo sob o douramento! — gritou.

— Não toque! — respondeu Pandora, em voz humana transmitida pelo vínculo, embora o bico não se movesse. Iria já havia inserido a lâmina de meia-lua na borda. Kraw atravessou a Câmara em Passo Escarlate. A distância tentou desaparecer, mas ele a reconstruiu com o olhar: mesa, grade, ombro de Iria, dois passos. Surgiu ao lado dela.

— Você ouviu a especialista.

— A placa é a segunda Âncora. Se a deixarmos, o Coro continua ligado aos nomes.

— Então fazemos juntos. Iria olhou para ele. O caos ao redor parecia suspenso dentro daquele segundo: vidro, asas, sangue leve na testa de Lucian, Nessa berrando metáforas ruins, Corven tentando alcançar uma bolsa presa sob a passarela.

— Você confia em mim? — perguntou Iria. Kraw não precisou pensar.

— Sim. Ela entregou a ele a lâmina de meia-lua.

— Quando eu disser, corte o Traço, não o metal.

— Isso é conselho de restauradora ou de duelista?

— É ordem.

— Melhor ainda. Iria puxou a placa. O mundo gritou sem som. A ausência atrás do vitral contraiu-se e disparou algo comprido, uma lâmina formada por vidro azul, chumbo e espaço apagado. Kraw viu o movimento tarde porque a arma não atravessava a distância: removia a distância à frente de si. Ele ergueu a rapieira. A cópia de Lucian o atingiu por trás. Kraw caiu de um joelho. Iria virou-se. A lâmina atravessou a grade, rasgou tecido, carne e luz. O impacto a lançou contra o degrau de pedra. O Caderno das Margens abriu no ar, folhas se soltando como pássaros brancos. Sangue apareceu no lado do corpo dela, escuro sob a luz azul, e a lâmina se desfez em cacos que continuaram avançando depois de tocar o chão.

— IRIA! Kraw deu um passo. O piso abriu entre eles. A passarela central caiu meio nível. Uma barra de metal atingiu a grade. Corven gritou instruções que o rugido sem som da Câmara devorou. Lucian interceptou duas formas ao mesmo tempo. Nessa se lançou sobre o Caderno antes que as páginas alcançassem a ausência. A águia mergulhou, asas enormes fechando-se sobre um feixe de vidro que buscava Corven. Iria caiu atrás do altar técnico partido, uma mão ainda presa à placa de catálogo que arrancara do nicho. O Coro veio entre Kraw e ela. Sete corpos sem rosto abriram bocas que não existiam. No alto, o pássaro do Nono Vitral arrancou a própria asa de vidro e a ergueu como uma lâmina sobre toda a Câmara. Pandora retomou forma humana no ar, despencando sobre a passarela e já traçando um contracanto com as duas mãos.

— Kraw! A Âncora está mudando! Lucian foi lançado contra a parede. Nessa ergueu uma página e gritou um nome. A segunda lâmina desceu. Kraw segurou a rapieira com as duas mãos, o sangue de Iria brilhando nos cacos entre seus pés, e avançou antes que o silêncio terminasse de fechar o mundo.

Fim do capítulo 3