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Memória · Nostalgia
Saudosismo.
Do Atari do meu pai às madrugadas de Sonic, pizza e amigos: as lembranças dos meus primeiros videogames.
Quem aqui não sente um grande saudosismo ao lembrar de uma época em que esperava a sexta-feira chegar para tirar a roupa do colégio, ligar a televisão no canal 3, assoprar a fita de Mortal Kombat ou Castle of Illusion, apertar o botão Power e se divertir até a noite?
Era a época de ouro dos videogames, quando os gigantes ainda eram Sega e Nintendo, e a briga ficava entre personagens famosos até para as crianças de hoje. A eterna luta entre o ouriço azul mais rápido do mundo e o encanador barrigudo e bigodudo do Reino dos Cogumelos. Era uma época boa de verdade: mesmo os fanboys mais ferrenhos se rendiam aos encantos dos dois mundos.
Lembro que eu era o cara do Mega Drive na minha rua. Todos os meus amigos tinham um Super Nintendo, e isso me fazia sentir meio excluído. Mas, apesar de se gabarem de Super Mario World, Top Gear e Sunset Riders, bastavam cinco minutinhos jogando Sonic 2 para os caras não saírem mais lá de casa.
Era muito divertido. Nós nos juntávamos nos finais de semana à noite, uns seis ou sete moleques com caixas de pizza e refrigerante — tínhamos entre oito e dez anos, né? — e virávamos a madrugada tentando zerar o jogo escolhido. Eu tinha o Mega Drive, o Rômulo levava seu SNES e o Renan, seu Master System. O resto da galera comprava as pizzas e os refris. Colocávamos colchões na sala e, na verdade, nem dormíamos. No dia seguinte, meus pais levantavam e nós ainda estávamos jogando. Cada um ia para casa, para chegar a noite de sábado e repetirmos a dose. Nada de briga ou fanboyzice: era algo saudável, e a diversão era tão natural que é disso que mais sinto falta hoje em dia.
Tudo começou assim:
Lembro do primeiro console em que pus as mãos: um Atari que foi do meu pai. Ele mal me deixava tocar, mas, de vez em quando, eu podia jogar Enduro, Postman, Pac-Man, River Raid… Era tudo maravilhoso, acredite. Eu achava aquilo o máximo. De tanto implorar, meu pai me comprou um Top Game, videogame famoso na época e clone barato do Nintendinho. Ele veio com um jogo parecido com River Raid — não me lembro do nome —, Street Fighter 2 (ou Master Fighters 2) e Super Mario Bros. 3.
Lembro como foi zerar Super Mario Bros. 3: uma felicidade que não me cabia no peito. Gritei muito na hora. Passei mais de 366 horas — duas semanas — jogando direto nas férias para detonar o jogo. Se naquela época existisse Instagram ou blogs, eu poderia ensinar, passo a passo, todos os segredos do game.
SSF 2 Turbo era a diversão que eu tinha com meu pai. Não sei por que ele só escolhia o Blanka O_o. Ele chegava do trabalho e me chamava para uma partida antiestresse. Sempre comprava um X-tudo na tia da esquina — o famoso podrão aqui no Rio, ou simplesmente hambúrguer — quando eu o vencia na melhor de três. Essa jogatina foi o que mais me aproximou do meu pai. É uma prova de que videogame, antigamente, era uma coisa para a família. Não sei até hoje que fim levou meu velho Top Game; só sei que ele me traz ótimas lembranças.
Depois de um tempo, enquanto eu assistia à TV com minha mãe, passou um comercial da Tectoy sobre o Master System. Pedi um de Natal. Dito e feito: ganhei meu Master System com Sonic na memória. Foi meu primeiro contato com o ouriço azul. Como o jogo era rápido e colorido! Divertido demais. As fases bônus e as batalhas contra o Dr. Eggman eram muito mais difíceis do que contra o Bowser.
Logo depois, meu pai comprou algumas fitas. Quem não se lembra de Psycho Fox, Alex Kidd in Miracle World, Shinobi, Super Monaco GP, Black Belt, Land of Illusion, California Games e minha paixão, Phantasy Star? Sem falar nos jogos adaptados pela Tectoy para o Brasil, como Turma da Mônica ao Resgate, Sapo Xulé, Castelo Rá-Tim-Bum etc. Era uma ótima plataforma; me diverti durante anos com ela.
Até que meus amigos ganharam um Super Nintendo. Eu era o único que ainda estava na geração passada. Mas não me importava muito, pois tinha ganhado uma fita nova: Sonic Chaos, em que o Sonic tinha um novo amigo, o famoso Tails. Nesse jogo, você podia controlá-lo e até voar por alguns segundos. Mesmo assim, o assunto era Super Mario World e seu famoso Yoshi. Como eu ficava frustrado! Implorei para o meu pai até ele não aguentar mais.
Lembra daquele comercial da Caloi em que a criança pedia a bicicleta para o pai de todas as maneiras possíveis? Ela até colava um bilhete no espelho do banheiro para ele acordar e se lembrar de comprar a Caloi. Fiz o mesmo. Enchi tanto que ele disse que me compraria o videogame de aniversário, que não estava longe. Faço aniversário em 31 de agosto, e já estávamos no dia 28. Mal dormi naquela noite, achando que ganharia meu Super Nintendo.
Foi aí que veio a surpresa. Primeiro, ele chegou em casa e disse que não encontrou o videogame. Então me deu três caixas de roupas, sabe aquelas da C&A? Eu agradeci meio choroso, mas aceitei. Fui criado assim: se eles tivessem, me dariam; quando não tinham, eu aceitava de bom grado tudo o que era possível, pois havia pessoas que nem isso podiam ganhar. Fiquei na sala chorando escondido. Afinal, eu tinha esperado demais por aquele videogame novo.
Nisso, minha mãe me chamou lá no quarto e disse que meu pai precisava da minha ajuda. Corri para o banheiro para lavar o rosto; não queria levar sermão. Quando entrei no quarto, o sacana do meu pai estava jogando um game de luta cheio de sangue, que eu só tinha visto nos fliperamas. E eu não tinha aquele jogo para Master System. Quando olhei bem, era um Mega Drive. Ele me falou: “Surpresa, seu chorão! Achou que o papai ia fazer isso com você mesmo?”
Nossa, eu chorei, pulei em cima dele e bati nele também, rs. Afinal, tinha ficado triste à toa. O Mega Drive que ele comprou era a edição especial de Altered Beast. E comprou mais três fitas: Sonic 2, Mortal Kombat e FIFA 94.
Mais tarde, comecei a comprar outros jogos. Tive na minha coleção Golden Axe, Streets of Rage, Zero Tolerance, Street Fighter II: Special Champion Edition, The Revenge of Shinobi, Flashback, Comix Zone, Aladdin, FIFA Soccer 97, Sonic & Knuckles, Ristar, Jurassic Park, Castle of Illusion, QuackShot, Super Monaco GP, Gunstar Heroes, Moonwalker, Rock & Roll Racing, Primal Rage, Earthworm Jim e muitos outros de que não consigo me lembrar. Foi nesse console que minha paixão incontrolável por games aflorou e nunca mais parou.
Apesar de ter ganhado um Mega Drive, e não o Super Nintendo que eu tanto queria, percebi que não era porque todos tinham uma coisa e só falavam dela que eu precisava ser igual para interagir. Aprendi, ao ganhar o Mega, que eu não tinha que ser igual. Eu era o mesmo de sempre, e eles continuariam sendo meus amigos, independentemente de eu ter ou não o assunto do momento. Tanto que, quando falei de Sonic, todos me deram atenção. Perguntaram como era, se era mais divertido, queriam jogar comigo. Foi assim que nasceu a nossa sociedade gamer Del (u.u). Formamos um grupo que se reunia todo final de semana para jogar, comprar revistas de games e conversar sobre as novidades que cada um descobria.
Foi assim que aqueles finais de semana começaram. Não há um dia em que eu não sinta falta daquela época, quando não existia memory card, GameShark ou jogo à distância. Para jogar em dupla era preciso estar presente, conhecer seu amigo. Até na época do lançamento do PlayStation 1 nós estávamos juntos; ainda nos encontrávamos. Mas a vida tem dessas coisas. Com pouquíssimos ainda tenho contato. Outros se mudaram até de país. As risadas, os finais de semana com piadas e molequices ainda me fazem chorar de tanta saudade da minha infância.
Bem, essa é um pouco da minha história com os consoles da infância. Gostaria de saber a sua também. Conte nos comentários como foi seu contato com o primeiro videogame, o que sentiu ao zerar um jogo pela primeira vez. Não se esqueça das coisas boas que essas coisinhas já lhe proporcionaram.
Abraços, Paulo Victor Serzedello.
