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Capítulo 1
A Carta que a Chuva Não Apagou
A chuva havia parado antes do amanhecer, mas a Escadaria das Chuvas ainda guardava água suficiente para punir qualquer gesto feito por vaidade. Kraw Savage conhecia cada degrau pelo modo como falhava. O terceiro retinha uma película quase invisível junto à borda. O sétimo inclinava para a esquerda. O décimo segundo parecia firme até o peso se comprometer. Garran dizia que pedra molhada era o melhor mestre porque não se deixava seduzir por explicações.
Kraw subiu e desceu a primeira sequência sem desembainhar. Calcanhar leve. Joelho solto. Ombros baixos. O corpo acordava por partes, aceitando o frio e a umidade antes que a mente inventasse uma desculpa elegante. Quando enfim puxou a rapieira, o aço devolveu o céu em cinza pálido.
— Outra vez — disse para si mesmo.
A Reverência Quebrada começava com uma cortesia que não era cortesia. O pé traseiro recolhia, o tronco cedia um grau, a mão livre abria como se oferecesse passagem. O observador acreditava que a intenção havia recuado. Nesse espaço mínimo, a lâmina encontrava a linha que o outro deixara de proteger.
Kraw executou o movimento três vezes. Na quarta, a sola deslizou menos de um dedo. Foi o bastante para estragar tudo.
— Bonito — disse uma voz acima. — Se ignorarmos a parte em que você quase beijou o degrau.
Maela Rinn estava sentada no corrimão de pedra, com a capa dobrada sobre os joelhos e o cabelo preso por uma fita que já havia perdido a guerra contra a umidade. Joane Dors se encontrava dois degraus atrás, equilibrando uma caixa de ferramentas de lampista no quadril.
— O degrau avançou sem anunciar a intenção — respondeu Kraw. — Uma falta de etiqueta grave.
— Você fala assim até com pedra? — perguntou Joane.
— Principalmente com pedra. Pessoas costumam responder.
As duas haviam começado o treino adulto no Palco da Lanterna quatro meses antes. Maela ainda antecipava o ombro antes de atacar. Joane movia os pés com precisão, mas esquecia que precisão sem respiração virava rigidez. Kraw guardou a rapieira e desceu até elas.
— Mostrem a quarta posição de ontem.
Maela ergueu a sobrancelha. — Aqui?
— A pedra não vai contar para ninguém.
Joane deixou a caixa no chão. As duas se posicionaram, usando bastões curtos no lugar das lâminas. Maela avançou primeiro. Joane desviou com o punho um pouco alto, corrigiu e respondeu. O som seco da madeira bateu entre os muros úmidos.
Kraw observou sem interromper. Na segunda repetição, Maela encaixou o peso com uma naturalidade que não existira no dia anterior. Joane sustentou a linha e deixou o corpo respirar dentro da postura.
— Isso — disse ele, aproximando-se. — Maela, o seu avanço finalmente parou de pedir desculpas antes de existir. Joane, a curva do seu punho ficou limpa. Repitam exatamente assim. Há música nessa posição.
O silêncio das duas durou meio segundo.
Então Bram Olt surgiu no alto da escadaria carregando um cesto de pães e abriu um sorriso tão largo que quase derrubou metade do café da manhã da Travessa.
— Música na posição, é? — disse o padeiro. — O dia nem clareou e o rapaz já começou.
Maela fechou os olhos. Joane virou o rosto para esconder o riso. Kraw levou alguns instantes para compreender o caminho tomado pela frase.
— Eu estava elogiando a mecânica do movimento.
— Claro — respondeu Bram. — E eu converso com fermento por interesse científico.
— Você conversa com fermento porque ele é a única criatura que cresce ouvindo suas histórias.
Joane riu alto. Bram apontou para Kraw como quem registrava uma vitória futura e continuou descendo. Antes que alcançasse o fim da escadaria, já havia cumprimentado duas janelas abertas.
— Ao meio-dia você estará noivo das duas — disse Maela.
— À tarde, de uma terceira pessoa que ainda não conheço.
— Você podia aprender a dizer apenas ‘melhorou’ — sugeriu Joane.
Kraw olhou para os bastões, para a linha corrigida dos ombros e para a água acumulada nos degraus. — Podia. Seria menos verdadeiro.
Maela suspirou, mas não parecia ofendida. — Então aprenda a ser verdadeiro com menos decoração.
A frase ficou com ele enquanto recolhia a capa. Era uma boa frase. Desagradável, precisa e boa.
A Travessa das Sete Lanternas começava a despertar quando Kraw retornou. Lanternas eram apagadas uma a uma; cortinas se abriam; cheiro de pão, tinta e madeira molhada se misturava no ar. A Oficina Savage & Valeri tinha as janelas inferiores acesas. Mirella sempre chegava ao dia antes do próprio dia.
Tessa o esperava do lado de fora da banca.
Isso, por si só, era errado.
A tia nunca esperava em lugar algum. Ela fazia os lugares esperarem por ela, cercada de livros, flores secas e cartas que pareciam ter viajado mais do que as pessoas que as escreveram. Naquela manhã, porém, estava parada sob o toldo ainda fechado, segurando um envelope entre as duas mãos.
— Você demorou — disse.
— Bram me comprometeu com duas mulheres e uma posição de esgrima.
— Só duas? Ele está perdendo talento.
Kraw não sorriu. O envelope havia chamado sua atenção.
Era de papel cinza-claro, grosso, com fibras visíveis. A chuva manchara as bordas, mas não tocara o centro. Não havia endereço. Apenas o nome dele, escrito em tinta escura.
Kraw Savage.
A caligrafia inclinava levemente à direita e fechava o ‘g’ como uma lâmina retornando à guarda.
O mundo não parou. Uma carroça gemeu na esquina. Alguém bateu uma janela. Um lampião estalou ao ser apagado. Ainda assim, Kraw sentiu como se a Travessa inteira tivesse dado um passo para trás.
— Onde você conseguiu isso?
— Não consegui. Encontraram na minha banca.
— Quem?
— Ninguém que tenha deixado nome. Quando cheguei, estava sob o vaso de flores azuis. Seco por baixo e molhado por cima.
Kraw estendeu a mão, mas Tessa não entregou.
— Antes — disse ela —, prometa que não vai desaparecer dentro dessa carta.
— Não sei prometer uma coisa que ainda não entendi.
— Então prometa que vai lembrar que tem casa.
Ele olhou para a oficina. Atrás do vidro, a silhueta de Mirella cruzou entre rolos de tecido. No andar superior, uma nota isolada do violino de Liora nasceu, falhou e voltou mais firme.
— Eu tenho casa — respondeu.
Tessa finalmente lhe deu o envelope.
O selo era de cera carmesim, marcado não por brasão, mas por uma linha curva semelhante à metade de uma rosa. Kraw conhecia aquela marca. Seraphine a usava quando uma mensagem não devia ser aberta diante de testemunhas.
Ele quebrou o selo ali mesmo.
Dentro havia uma única folha e uma pequena pena dourada. O texto ocupava quatro linhas.
A décima terceira voz não se perdeu.
Ela foi entregue à casa que aplaude em silêncio.
Procure onde o ouro aprende a esconder poeira.
Não confie em quem lhe oferecer a obra inteira.
Kraw leu uma vez. Depois outra. Na terceira, deixou de procurar sentido e apenas observou a forma das letras. A mão que escrevera aquilo tremia quase imperceptivelmente no final da segunda linha. Seraphine nunca tremia ao escrever.
— É dela — disse.
— Eu sei.
— Ou de alguém que estudou cada página que ela tocou.
— Também sei.
A porta da oficina se abriu. Mirella surgiu com uma fita métrica no pescoço e tinta no dedo indicador. Não perguntou o que acontecera. Viu o envelope, viu o rosto do filho e chamou para dentro.
Garran estava junto ao balcão, ajustando a fivela de uma bainha. Liora permanecia na escada com o arco do violino numa mão. Quando Kraw colocou a carta sobre a mesa, nenhum deles falou de imediato.
Mirella foi a primeira a tocar o papel. Não leu o texto. Passou o dedo pelas fibras.
— Papel de arquivo — disse. — Não é vendido na Travessa.
— Ópera? — perguntou Liora.
— Talvez — respondeu Mirella. — Ou Conselho. A liga de prata na borda é usada para afastar mofo em salas subterrâneas.
Garran ergueu os olhos. — Quem deixou?
— Não sabemos.
— Então sabemos uma coisa: quer que você vá a algum lugar sem saber quem estará esperando.
— A casa que aplaude em silêncio — disse Liora. — A Ópera vazia.
— Ou um camarote — corrigiu Mirella. — Camarotes aplaudem por seus donos, mesmo quando estão vazios.
Kraw leu novamente a última linha. Não confie em quem lhe oferecer a obra inteira.
Garran colocou a bainha na mesa. — Você não vai sozinho.
— Eu ainda não disse que vou.
— Você respirou como respira antes de avançar.
Liora se aproximou da carta. — A pena é de canário-dourado. Usam no Salão do Pássaro Canoro.
— Usam em toda a Colina — disse Mirella. — E é fácil comprar no Mercado das Arcadas. Isso pode ser pista ou cenário.
Kraw olhou para a mãe. Cenário. Seraphine dizia a mesma coisa quando um elemento parecia perfeito demais.
— Nessa precisa ver a estrutura do texto. Corven pode analisar a tinta. Lucian tem acesso ao Camarote Vargo e talvez ao Arquivo da Ópera.
Garran não gostou de nenhum dos nomes, embora por razões diferentes.
— Primeiro você come — disse Mirella.
— Mãe.
— Se uma carta esperou onze meses, aguenta pão e café.
Era impossível discutir com uma mulher que restaurava figurinos como quem encerrava guerras. Kraw sentou.
Uma hora depois, o Palco da Lanterna cheirava a serragem, cera e tecido guardado. Nessa Quill ocupava a borda do palco com três páginas no colo e uma quarta presa entre os dentes. Quando viu Kraw, retirou a folha da boca.
— Se Bram estiver certo, eu exijo escolher as flores do casamento.
— É admirável como a notícia se move sem precisar de pernas.
— Tem as pernas de Bram. São pequenas, mas insistentes.
Kraw entregou a carta.
Nessa leu as quatro linhas e parou de sorrir. Os olhos navins, grandes e atentos, percorreram o espaço entre as frases.
— Isso não é só poema — disse. — É direção de palco.
— Explique.
— ‘Casa’ é o edifício. ‘Aplaude em silêncio’ é uma plateia vazia. ‘Ouro aprende a esconder poeira’ significa decoração sobre arquivo, ou riqueza sobre trabalho. E observe os verbos: perdeu, entregue, procure, confie. A ordem está invertida. Se reorganizar pelo tempo da ação, fica: procure, não confie, foi entregue, não se perdeu.
— Um aviso para investigar antes de aceitar qualquer versão completa.
— Ou um aviso de que alguém vai aparecer com exatamente o que você quer.
Uma lâmina tocou madeira atrás deles.
Lucian Vargo estava no corredor lateral do palco, segurando uma rapieira de treino e usando um casaco claro que parecia não conhecer poeira. Kraw não o ouvira entrar.
— Nesse caso — disse Lucian —, é profundamente inconveniente que eu tenha vindo oferecer acesso à Ópera.
Nessa olhou para Kraw. — Eu adoro quando os símbolos não têm paciência.
Lucian desceu os dois degraus do corredor e estendeu um cartão com o selo da Casa Vargo.
— Hoje à noite haverá uma inspeção privada no Arquivo da Ópera. Minha tia vai receber restauradores antes do ensaio fechado. Posso colocar dois nomes na lista.
— Por que faria isso? — perguntou Kraw.
Lucian sustentou o olhar com a expressão de quem sempre transformava sinceridade em duelo.
— Porque Seraphine também foi minha professora por seis meses. Porque alguém entrou no Camarote Vargo ontem sem usar a porta. E porque encontrei isto sob a cadeira principal.
Ele abriu a mão.
Havia nela uma pétala cinzenta prensada entre duas lâminas finas de vidro.
Kraw carregava outra igual no Atlas dos Versos Inacabados.
A primeira fora entregue por Seraphine no dia em que o aceitou como aluno.
Por um instante, o Palco da Lanterna pareceu pequeno demais para conter o silêncio.
— Quantos nomes? — perguntou Kraw.
— Dois.
Nessa levantou a mão. — Eu sou baixa. Conto como meio.
Lucian sorriu sem alegria. — À meia-noite, então. Entrada dos restauradores. E, Kraw…
— Sim?
— Não leve poesia para uma armadilha.
Kraw fechou os dedos ao redor da carta.
— Não posso prometer isso.
— Eu sabia.
Do lado de fora, a chuva começou outra vez.
