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Capa do capítulo 1 de Crônicas de Vespéria: A Carta que a Chuva Não Apagou.

Crônicas de Vespéria 01 / 05

A Carta que a Chuva Não Apagou

8 páginas9 min de leituraPaulo Victor Serzedello
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Capítulo 1

A Carta que a Chuva Não Apagou

A chuva havia parado antes do amanhecer, mas a Escadaria das Chuvas ainda guardava água suficiente para punir qualquer gesto feito por vaidade. Kraw Savage conhecia cada degrau pelo modo como falhava. O terceiro retinha uma película quase invisível junto à borda. O sétimo inclinava para a esquerda. O décimo segundo parecia firme até o peso se comprometer. Garran dizia que pedra molhada era o melhor mestre porque não se deixava seduzir por explicações.

Kraw subiu e desceu a primeira sequência sem desembainhar. Calcanhar leve. Joelho solto. Ombros baixos. O corpo acordava por partes, aceitando o frio e a umidade antes que a mente inventasse uma desculpa elegante. Quando enfim puxou a rapieira, o aço devolveu o céu em cinza pálido.

— Outra vez — disse para si mesmo.

A Reverência Quebrada começava com uma cortesia que não era cortesia. O pé traseiro recolhia, o tronco cedia um grau, a mão livre abria como se oferecesse passagem. O observador acreditava que a intenção havia recuado. Nesse espaço mínimo, a lâmina encontrava a linha que o outro deixara de proteger.

Kraw executou o movimento três vezes. Na quarta, a sola deslizou menos de um dedo. Foi o bastante para estragar tudo.

— Bonito — disse uma voz acima. — Se ignorarmos a parte em que você quase beijou o degrau.

Maela Rinn estava sentada no corrimão de pedra, com a capa dobrada sobre os joelhos e o cabelo preso por uma fita que já havia perdido a guerra contra a umidade. Joane Dors se encontrava dois degraus atrás, equilibrando uma caixa de ferramentas de lampista no quadril.

— O degrau avançou sem anunciar a intenção — respondeu Kraw. — Uma falta de etiqueta grave.

— Você fala assim até com pedra? — perguntou Joane.

— Principalmente com pedra. Pessoas costumam responder.

As duas haviam começado o treino adulto no Palco da Lanterna quatro meses antes. Maela ainda antecipava o ombro antes de atacar. Joane movia os pés com precisão, mas esquecia que precisão sem respiração virava rigidez. Kraw guardou a rapieira e desceu até elas.

— Mostrem a quarta posição de ontem.

Maela ergueu a sobrancelha. — Aqui?

— A pedra não vai contar para ninguém.

Joane deixou a caixa no chão. As duas se posicionaram, usando bastões curtos no lugar das lâminas. Maela avançou primeiro. Joane desviou com o punho um pouco alto, corrigiu e respondeu. O som seco da madeira bateu entre os muros úmidos.

Kraw observou sem interromper. Na segunda repetição, Maela encaixou o peso com uma naturalidade que não existira no dia anterior. Joane sustentou a linha e deixou o corpo respirar dentro da postura.

— Isso — disse ele, aproximando-se. — Maela, o seu avanço finalmente parou de pedir desculpas antes de existir. Joane, a curva do seu punho ficou limpa. Repitam exatamente assim. Há música nessa posição.

O silêncio das duas durou meio segundo.

Então Bram Olt surgiu no alto da escadaria carregando um cesto de pães e abriu um sorriso tão largo que quase derrubou metade do café da manhã da Travessa.

— Música na posição, é? — disse o padeiro. — O dia nem clareou e o rapaz já começou.

Maela fechou os olhos. Joane virou o rosto para esconder o riso. Kraw levou alguns instantes para compreender o caminho tomado pela frase.

— Eu estava elogiando a mecânica do movimento.

— Claro — respondeu Bram. — E eu converso com fermento por interesse científico.

— Você conversa com fermento porque ele é a única criatura que cresce ouvindo suas histórias.

Joane riu alto. Bram apontou para Kraw como quem registrava uma vitória futura e continuou descendo. Antes que alcançasse o fim da escadaria, já havia cumprimentado duas janelas abertas.

— Ao meio-dia você estará noivo das duas — disse Maela.

— À tarde, de uma terceira pessoa que ainda não conheço.

— Você podia aprender a dizer apenas ‘melhorou’ — sugeriu Joane.

Kraw olhou para os bastões, para a linha corrigida dos ombros e para a água acumulada nos degraus. — Podia. Seria menos verdadeiro.

Maela suspirou, mas não parecia ofendida. — Então aprenda a ser verdadeiro com menos decoração.

A frase ficou com ele enquanto recolhia a capa. Era uma boa frase. Desagradável, precisa e boa.

A Travessa das Sete Lanternas começava a despertar quando Kraw retornou. Lanternas eram apagadas uma a uma; cortinas se abriam; cheiro de pão, tinta e madeira molhada se misturava no ar. A Oficina Savage & Valeri tinha as janelas inferiores acesas. Mirella sempre chegava ao dia antes do próprio dia.

Tessa o esperava do lado de fora da banca.

Isso, por si só, era errado.

A tia nunca esperava em lugar algum. Ela fazia os lugares esperarem por ela, cercada de livros, flores secas e cartas que pareciam ter viajado mais do que as pessoas que as escreveram. Naquela manhã, porém, estava parada sob o toldo ainda fechado, segurando um envelope entre as duas mãos.

— Você demorou — disse.

— Bram me comprometeu com duas mulheres e uma posição de esgrima.

— Só duas? Ele está perdendo talento.

Kraw não sorriu. O envelope havia chamado sua atenção.

Era de papel cinza-claro, grosso, com fibras visíveis. A chuva manchara as bordas, mas não tocara o centro. Não havia endereço. Apenas o nome dele, escrito em tinta escura.

Kraw Savage.

A caligrafia inclinava levemente à direita e fechava o ‘g’ como uma lâmina retornando à guarda.

O mundo não parou. Uma carroça gemeu na esquina. Alguém bateu uma janela. Um lampião estalou ao ser apagado. Ainda assim, Kraw sentiu como se a Travessa inteira tivesse dado um passo para trás.

— Onde você conseguiu isso?

— Não consegui. Encontraram na minha banca.

— Quem?

— Ninguém que tenha deixado nome. Quando cheguei, estava sob o vaso de flores azuis. Seco por baixo e molhado por cima.

Kraw estendeu a mão, mas Tessa não entregou.

— Antes — disse ela —, prometa que não vai desaparecer dentro dessa carta.

— Não sei prometer uma coisa que ainda não entendi.

— Então prometa que vai lembrar que tem casa.

Ele olhou para a oficina. Atrás do vidro, a silhueta de Mirella cruzou entre rolos de tecido. No andar superior, uma nota isolada do violino de Liora nasceu, falhou e voltou mais firme.

— Eu tenho casa — respondeu.

Tessa finalmente lhe deu o envelope.

O selo era de cera carmesim, marcado não por brasão, mas por uma linha curva semelhante à metade de uma rosa. Kraw conhecia aquela marca. Seraphine a usava quando uma mensagem não devia ser aberta diante de testemunhas.

Ele quebrou o selo ali mesmo.

Dentro havia uma única folha e uma pequena pena dourada. O texto ocupava quatro linhas.

A décima terceira voz não se perdeu.
Ela foi entregue à casa que aplaude em silêncio.
Procure onde o ouro aprende a esconder poeira.
Não confie em quem lhe oferecer a obra inteira.

Kraw leu uma vez. Depois outra. Na terceira, deixou de procurar sentido e apenas observou a forma das letras. A mão que escrevera aquilo tremia quase imperceptivelmente no final da segunda linha. Seraphine nunca tremia ao escrever.

— É dela — disse.

— Eu sei.

— Ou de alguém que estudou cada página que ela tocou.

— Também sei.

A porta da oficina se abriu. Mirella surgiu com uma fita métrica no pescoço e tinta no dedo indicador. Não perguntou o que acontecera. Viu o envelope, viu o rosto do filho e chamou para dentro.

Garran estava junto ao balcão, ajustando a fivela de uma bainha. Liora permanecia na escada com o arco do violino numa mão. Quando Kraw colocou a carta sobre a mesa, nenhum deles falou de imediato.

Mirella foi a primeira a tocar o papel. Não leu o texto. Passou o dedo pelas fibras.

— Papel de arquivo — disse. — Não é vendido na Travessa.

— Ópera? — perguntou Liora.

— Talvez — respondeu Mirella. — Ou Conselho. A liga de prata na borda é usada para afastar mofo em salas subterrâneas.

Garran ergueu os olhos. — Quem deixou?

— Não sabemos.

— Então sabemos uma coisa: quer que você vá a algum lugar sem saber quem estará esperando.

— A casa que aplaude em silêncio — disse Liora. — A Ópera vazia.

— Ou um camarote — corrigiu Mirella. — Camarotes aplaudem por seus donos, mesmo quando estão vazios.

Kraw leu novamente a última linha. Não confie em quem lhe oferecer a obra inteira.

Garran colocou a bainha na mesa. — Você não vai sozinho.

— Eu ainda não disse que vou.

— Você respirou como respira antes de avançar.

Liora se aproximou da carta. — A pena é de canário-dourado. Usam no Salão do Pássaro Canoro.

— Usam em toda a Colina — disse Mirella. — E é fácil comprar no Mercado das Arcadas. Isso pode ser pista ou cenário.

Kraw olhou para a mãe. Cenário. Seraphine dizia a mesma coisa quando um elemento parecia perfeito demais.

— Nessa precisa ver a estrutura do texto. Corven pode analisar a tinta. Lucian tem acesso ao Camarote Vargo e talvez ao Arquivo da Ópera.

Garran não gostou de nenhum dos nomes, embora por razões diferentes.

— Primeiro você come — disse Mirella.

— Mãe.

— Se uma carta esperou onze meses, aguenta pão e café.

Era impossível discutir com uma mulher que restaurava figurinos como quem encerrava guerras. Kraw sentou.

Uma hora depois, o Palco da Lanterna cheirava a serragem, cera e tecido guardado. Nessa Quill ocupava a borda do palco com três páginas no colo e uma quarta presa entre os dentes. Quando viu Kraw, retirou a folha da boca.

— Se Bram estiver certo, eu exijo escolher as flores do casamento.

— É admirável como a notícia se move sem precisar de pernas.

— Tem as pernas de Bram. São pequenas, mas insistentes.

Kraw entregou a carta.

Nessa leu as quatro linhas e parou de sorrir. Os olhos navins, grandes e atentos, percorreram o espaço entre as frases.

— Isso não é só poema — disse. — É direção de palco.

— Explique.

— ‘Casa’ é o edifício. ‘Aplaude em silêncio’ é uma plateia vazia. ‘Ouro aprende a esconder poeira’ significa decoração sobre arquivo, ou riqueza sobre trabalho. E observe os verbos: perdeu, entregue, procure, confie. A ordem está invertida. Se reorganizar pelo tempo da ação, fica: procure, não confie, foi entregue, não se perdeu.

— Um aviso para investigar antes de aceitar qualquer versão completa.

— Ou um aviso de que alguém vai aparecer com exatamente o que você quer.

Uma lâmina tocou madeira atrás deles.

Lucian Vargo estava no corredor lateral do palco, segurando uma rapieira de treino e usando um casaco claro que parecia não conhecer poeira. Kraw não o ouvira entrar.

— Nesse caso — disse Lucian —, é profundamente inconveniente que eu tenha vindo oferecer acesso à Ópera.

Nessa olhou para Kraw. — Eu adoro quando os símbolos não têm paciência.

Lucian desceu os dois degraus do corredor e estendeu um cartão com o selo da Casa Vargo.

— Hoje à noite haverá uma inspeção privada no Arquivo da Ópera. Minha tia vai receber restauradores antes do ensaio fechado. Posso colocar dois nomes na lista.

— Por que faria isso? — perguntou Kraw.

Lucian sustentou o olhar com a expressão de quem sempre transformava sinceridade em duelo.

— Porque Seraphine também foi minha professora por seis meses. Porque alguém entrou no Camarote Vargo ontem sem usar a porta. E porque encontrei isto sob a cadeira principal.

Ele abriu a mão.

Havia nela uma pétala cinzenta prensada entre duas lâminas finas de vidro.

Kraw carregava outra igual no Atlas dos Versos Inacabados.

A primeira fora entregue por Seraphine no dia em que o aceitou como aluno.

Por um instante, o Palco da Lanterna pareceu pequeno demais para conter o silêncio.

— Quantos nomes? — perguntou Kraw.

— Dois.

Nessa levantou a mão. — Eu sou baixa. Conto como meio.

Lucian sorriu sem alegria. — À meia-noite, então. Entrada dos restauradores. E, Kraw…

— Sim?

— Não leve poesia para uma armadilha.

Kraw fechou os dedos ao redor da carta.

— Não posso prometer isso.

— Eu sabia.

Do lado de fora, a chuva começou outra vez.

Fim do capítulo 1